De Rerum Natura

Caríssimos!
Não escrevo há muito para este espaço, porém, publico aqui o comentário que deixei no blog que dá o título a este artigo, escrito por uma pessoa que admiro imenso: http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/ultima-corrida-de-touros-em-arronches.html


«Embora leitor assíduo, tenho por hábito não comentar os artigos. Até porque, em geral, as opiniões expressas vão de encontro àquilo que eu penso.Hoje, porém, enquanto faço uma pausa dos estudos, sabendo que a minha intervenção neste espaço pouco ou nada servirá para alterar o actual estado das coisas, a minha consciência obriga a que exponha o que penso em relação à festa brava.
Não me considero um aficcionado, mas, alguém que gosta de assistir, quando tal se proporciona, a umas corridas de touros à portuguesa. Não vou insistir em argumentos como a diferença entre esta e a tourada, com ou sem matador, nem na eventual insensibilidade do animal à dor ou outros argumentos que, quem quiser debater esta questão dentro dos limites da honestidade, terá de conhecer, em vez de cair em posições extremas. Compete-me, apenas, no âmbito de um debate honesto e rigoroso, denunciar um argumento que, diz-nos a lógica mais elementar, tem tanta validade como proibir o trânsito de, por exemplo, motociclos devido à gravidade dos ferimentos resultantes de eventuais acidentes, sem ter em conta a proporção destes em relação à totalidade nem o livre arbítrio dos motociclistas. Não quero com isto fazer a apologia de uma ou outra posição, mas somente, alertar para os fundamentalismos que podemos assumir quando a nossa posição, que julgamos moralmente superior, não é assente em alicerces sólidos. Devo, ainda, dizer que estou aberto a qualquer argumento possa alterar a minha opinião em relação à corrida de touros à portuguesa, não podendo ser chamado um fudamentalista conservador.
Rejeito, sim, à partida argumentos como o infeliz falecimento de um amante da festa brava constituir pretexto para a proibição arbitrária de uma actividade económica e cultural, algo que não tem o menor cabimento no contexto de um Estado de Direito Democrático. Deixo ainda a achega aos ambientalistas e eco-fascictas do costume, às pessoas com consciência ambiental e à generalidade dos leitores deste blog que, em vez de lutarem contra as corridas de touros, tentem cortar alguns argumentos dos aficcionados, como eu. Podem começar por lutar, ao invés, por uma (para não pedir várias) reserva ecológica que seja fiel ao habitat original do bovino de raça preta, onde estes animais possam viver no seu meio natural sem serem seleccionados para o espectáculo tauromáquico. É que esquecem-se que esta raça bovina, autóctone da Península Ibérica e uma das mais próximas do auroque, sobrevive apenas devido aos ganadeiros que, mesmo com prejuízo, mantêm a criação. E já agora, porque não apostar numa repovoação do nosso território com as espécies que a acção antrópica fez desaparecer ou restrigir? Acabar com as inconsequentes manchas de eucalipto e pinheiro bravo, os inúteis e ecológica e economicamente criminosos parques eólicos, Plano Nacional de Barragens, Projectos de Interesse Nacional e outros absurdos e nos dedicássemos à minimização e recuperação do impacto humano sobre a fauna e a flora? Que tal, em vez de ser contra as corridas de touros, lutar democraticamente pela restauração da fauna e flora autóctone: os carvalhos em geral, o urso, o lobo, o lince, o touro, o cavalo, os salmonídeos, o esturjão. Neste contexto, seria um dos primeiros a abdicar de uma boa corrida de touros, em prol da conservação destes e de outros animais e plantas.
Termino, para sintetizar, com este pensamento: proibir é uma atitude típica de regimes autoritários, não tendo eu qualquer objecção a uma atitude concertada que resulte do debate democrático, mesmo que o resultado seja o mesmo.
António Lopeso_impertinente@otmail.com
30 de Março de 2009 0:06 »

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